domingo, 27 de junho de 2010

Música: Sampa - Caetano Veloso

A música Sampa de Caetano Veloso evidencia muito bem a discussão em torno do conceito de etnocentrismo: o ato de valorizar o eu/nosso cultural em detrimento de uma outra cultura, que é rebaixada, inferiorizada. Repare que a letra apresenta uma personagem que chega na "selva de pedras" de São Paulo e logo recebe um choque cultural, numa relação de total estranhamento. Vale a pena fazer esse trabalho de reflexão!

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas

Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes

E foste um difícil começo
Afasto o que não conheço
E quem vende outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva

Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
E os novos baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa

Um comentário:

Elba Lopes disse...

Analisando "Sampa"
Em "Sampa", percebe-se que Caetano Veloso explora a
realidade encontrada pelo cidadão que chega à São Paulo e de imediato
tem suas primeiras impressões e ilusões acerca da cidade, da correria do
espaço urbano agitado, das grandes construções, etc. Aí, este cidadão tem
suas confusões e seus sentimentos contraditórios que se afioram diante do
destino dele. Ao mesmo tempo em que a cidade não pára, a pessoa
também não pode ou não consegue parar, e sobrevive apenas quem
acompanha esse ritmo e ainda sabe segurar ou fugir das ondas que o mar
urbano levanta todos os dias.
Essa análise pode ser justificada com o que relata o autor na
primeira estrofe da música:
"É que quando eu cheguei por aqui
Eu nada entendi.
Da dura poesia concreta de tuas esquinas,
Da dese1egância discreta de tuas meninas.
Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução"
Tendo em vista o fragmento acima, pode-se descobrir que,
diante de algumas possibilidades, o termo "concreta" remete-nos a
observar o contraste entre o espaço urbano, com seus edifícios e
construções enormes, e o espaço rural, mais calmo e de construções
simples, tanto quanto as próprias pessoas que ali vivem. Por outro lado, é
possível depreender então que as cidades vão sendo formadas assim: com
um aglomerado de concreto, seja na forma física, seja no estabelecimento
de relações humanas de sociedade, visto que tais relacionamentos
humanos têm revelado um homem mais duro e insensível com seu próximo.
Diante do quadro acima, pode-se ver na letra da música que o
'eu' se depara com tudo isso e para ele é difícil traduzir Rita Lee,
mulher e artista irreverente, extravagante e decidida. Rita revelava o
seu lado liberal, que agredia os comportamentos e posturas cristãs da
sociedade, que mantinha suas mulheres com valores morais rígidos, e,
também, os mutiladores da individualidade. As extravagâncias dela,
mulher sensivelmente crítica que incendiava o eixo cultural São
PauloRio de Janeiro como uma "Ovelha Negra", ocorriam numa
sociedade marcada por valores machistas e preconceituosos.
Se se tomar como conhecimento histórico a própria cidade de
São Paulo, no período dos anos 70 e, de uma certa maneira, ainda em
nossos dias, percebe-se que se trata duma cidade que atrai pessoas que
sonham com uma vida melhor, com maiores e melhores
oportunidades.